terça-feira, 24 de maio de 2011

Capão, o vale encantado.




Ter que pegar ônibus lotado todos os dias para ir ao trabalho. Enfrentar o trânsito,  violência e poluição. Batista cansou da vida na ''babilonia'', deixou tudo pra trás: trabalho, estudo, amigos e família  na capital da Bahia, Salvador e decidiu ir para um lugar cercado de verde, serras e cachoeiras. No Vale do Capão ele pretendia descansar trinta, mas, passaram-se sessenta, noventa, cento de vinte dias e Batista continua longe da ''babilonia'', praticando o desapego, dividindo as refeições, os tragos nos baseados com outras pessoas que conhece no Vale e fazendo arte com elas. De manhã ele liga seu mp3 para ouvir canções dos Novos Baianos, Edson Gomes, Elis Regina e Psy Trance. Quando surge alguém com um violão, ele saca a gaita afinada em ré menor, e cede sua flauta doce para alguém tocar. A música descompromissada encanta o jovem de vinte e dois anos, assim como o descompromisso com as horas que reina no vale. Uma filandesa de olhos azuis está numa situação igual; não consegue deixar a vida do Vale. Há meses longe de casa ela parece confusa quando fala em voltar ao seu país. Acha melhor esperar o tempo certo, sem forçar nada, um mês ou dois, talvez.
Diogo está chegando agora, juntamente com a esposa argentina e uma filhinha de dois anos, Amazonas. Depois de abandonar a vida de operário numa fabrica de plásticos da capital paulista,virar hipie, conhecer o Brasil de norte a sul, ir além das fronteiras, passar pela Bolivia, Peru e Venezuela ele pretende ficar alguns meses no Vale do Capão. 
Soteropolitanos, finlandeses, paulistas, argentinos, amazonenses, americanos, italianos, franceses, cariocas... gente do mundo todo chegam para descobrir o exuberante vale verde, cercado por serras gigantes, situado no coração da Chapada Diamantina. Misturam-se aos nativos baianos de fala mansa, dividem o espaço e quase sempre a cultura, pois nem todo nativo gosta de Maracatú e Transe e nem todo ''gringo'' gosta de forró eletronico romântico, mas, nas ruas de chão, que vão além dos paralelepipados do povoado de Caeté-Açú, eles se cruzam: os gringos branquelos de olhos azuis, cabelos arruinados pelos drads com roupas excêntricas e os nativos morenos de cabelos naturalmente encarolados vestindo o jeans da moda.

traunsentes andam pelas ruas de chão de Caeté-Acú


O Vale do Capão fica no município de Palmeiras, há 457 quilometros de Salvador. O turismo na região cresce desde de 1985, quando foi criado o Parque Nacional da Chapada Diamantina.



Mais de uma centena de pousadas  espalham-se pelos arredores do povoado de Caeté-Açú e quase todas possuem ambientes e atendimentos sofisticados para o público mais exigente.


No centro da Vila, padarias e ambulantes vendem lanches recheados, feitos com farinha de trigo integral, especialmente para os trilheiros que passam dias andando com mochilões nas costas, atrás de paisagens deslumbrantes. Mercado, quitanda e uma feira aos domingos vendem todo tipo de produtos com preços baixos - alternativa para quem quer economizar fazendo sua própria comidas nas cozinhas comunitárias das pousadas.


Feira livre de Caeté-Acu
Já a culinária no Vale é um misto de nordeste e europa, tendo o cuzcuz e a pizza como os preparos mais populares. Este último é feito com farinha de trigo integral, e o preço varia de R$ 2,00 o pedaço a R$ 32,00 a pizza inteira. Lojas expõem roupas especialmente desevolvidas para o público neo-hippie: saias longas, blusas bordadas, moletons com tocas de duendes. Os duendes também ilustram camisas pitadas a mão, pedras e outros artesanatos.

Lojas vendem roupas inspiradas em duendes


No Capão não se pode ficar parado sem "fazer". É comum ouvir nas conversas o uso do verbete para se referir às trilhas:
 - Você vai "fazer" o pati amanha?

 - Não vou "fazer" o Gavião.
 Quem não quiser ''fazer'' as trilhas durante o dia pode aproveitar as aulas de malabarismos, trapézio, teatro, massagem chineza, oferecidas no Circo do Capão - uma lona permanente armada que abriga nas casinhas de madeira, artistas franceses, paulistas e cariocas.

 malabarista do Circo do Capão

As aulas custam R$ 20,00 e podem durar a tarde inteira. A noite há apresentações de bandas de reggae, voz e violão, forró pé de serra, saraus literários, maracatus e exibições de filmes cults, nas bibliotecas e pousadas. Tudo de graça.




É preciso ir ao Vale do Capão preparado, com calçados apropriados para trilhas, ou munido de um violão, pincéis e tinta ou papel e caneta, pois o local é ideal para quem procura inspiração.
É comum ver  manifestações de amor ao capão nos muros,  através de grafites e de rabiscos que pregam a liberdade, o amor ao próximo  à natureza e ao sexo livre.

Tanta diversidade e misticistmo faz do Vale do Capão uma terra mágica que abriga nômades do mundo inteiro mantendo-se preservada com cercas que surge naturalmente dos galhos da árvores. Margaridas amarelas e acácias roxas  crescem nos jardins impecavelmente bem cuidados das casas e das pousadas. Quando você se cansar da sua ''babilônia'' fuja pra lá.

 
veja mais fotos:  Flickr - Jesus Dias 







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